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O paradoxo do Ocidente: História, Memória e Censura

Mural de Banksy apagada ao fim de 48h do Royal Courts of Justice em londres

A História, enquanto disciplina académica e enquanto narrativa social, é um campo de disputa permanente. Desde os cronistas medievais até aos influencers contemporâneos, o registo do passado nunca foi neutro. É escrito, reescrito e, muitas vezes, apagado. George Orwell sintetizou esta realidade ao afirmar: “A História é escrita pelos vencedores.”

No séc. XXI, em que as redes sociais amplificam símbolos, discursos e memórias, o debate sobre o que é “facto” e o que é “ficção” tornou-se central. Entre murais de arte censurados, protestos transformados em movimentos globais e acusações de manipulação política, percebe-se que a História não é apenas o que aconteceu, mas também o que escolhemos preservar, ou apagar.

A questão não se limita à memória do passado, pois também no presente, factos e símbolos são manipulados, censurados ou reinterpretados segundo interesses políticos, económicos e ideológicos, na tentativa de controlar as memórias coletivas.


A construção da História e os limites da imparcialidade

A História não se limita a registar factos, mas a construir narrativas a partir de documentos, testemunhos e símbolos, todos eles marcados pela parcialidade de quem os produziu.

Segundo Marc Bloch, o conhecimento histórico resulta da crítica às fontes e da sua interpretação contextualizada¹. José M. Amado Mendes reforça que essa crítica deve seguir um processo metódico: recolha documental, análise das fontes e interpretação².

No entanto, um historiador contemporâneo deve expandir este método para incluir novas fontes: murais urbanos, hashtags, vídeos virais. Como lembra Paul Ricoeur, “recordar é também escolher esquecer”³. Cabe ao historiador refletir sobre o que se preserva e o que se apaga, e sobre quem controla esse processo.

Neste processo, a imparcialidade total torna-se impossível, devendo-se reconhecer tanto a tendenciosidade das fontes, como a dos interlocutores como as nossas próprias enquanto receptores.


Liberdade democrática e manipulação política

Algumas democracias ocidentais orgulham-se de proclamar bastiões da liberdade. Mas se uma obra de arte é apagada em poucas horas, se discursos são controlados por interesses políticos, se palavras são classificadas como ofensivas, se memórias são limpas para evitar desconforto — que sobra dessa liberdade? Não será isto um retorno ao “lápis azul” português do século XX?

A manipulação da História é antiga, servindo para legitimar narrativas heroicas ou encobrir atos menos legítimos. Hoje, em pleno séc. XXI, líderes políticos recorrem a estratégias semelhantes, mas agora amplificadas pelas redes sociais e pelos media.

  • Donald Trump foi identificado como um dos principais difusores de fake news sobre a pandemia de Covid-194.
  • Vladimir Putin justificou a invasão da Ucrânia em 2022 invocando a suposta “desnazificação”, apropriando categorias históricas da 2.ª Guerra Mundial para se legitimar5.

É inegável que discursos de ódio e manipulações exigem limites. Mas quando esses limites se confundem com censura seletiva, o risco é claro: a democracia transforma-se num palco onde todos falam de liberdade, mas poucos a praticam.


Censura e revisionismos

Pierre Nora definiu os “lugares de memória” como espaços, monumentos, rituais e símbolos, onde se cristaliza e disputa a memória coletiva6.

  • O mural de Banksy em Londres (2025), pintado nos muros do Royal Courts of Justice, retratava um juiz a agredir um manifestante. Foi removido em 48 horas, oficialmente por motivos patrimoniais, mas amplamente interpretado como censura preventiva7 8. Ricoeur falaria aqui de uma “política do esquecimento”³. Não é o primeiro caso, o que indica que os seus trabalhos são considerados arte ou vandalismo, dependendo do alvo da sua crítica.
  • Os brasões da Praça do Império (Lisboa, 2023) dividiram opiniões: glorificação colonial para uns, património histórico para outros9.
  • A cruz suástica, símbolo milenar em culturas indo-europeias, foi redesignada pelo nazismo no século XX, tornando-se indissociável do Holocausto10.

Nestes casos, não é o objeto em si que determina o sentido, mas o discurso político e cultural que o envolve. Como escreveu Michel Foucault, “o poder circula no discurso11.


Movimentos Sociais

O Black Lives Matter (BLM), fundado em 2013 por Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi, surgiu em resposta à violência policial contra afro-americanos, ganhando dimensão global após a morte de George Floyd em 2020.

Objetivo declarado: combater o racismo estrutural e a violência policial.

Dimensão simbólica: manifestações, hashtags (#BlackLivesMatter) e murais que entraram no léxico da memória coletiva.

Controvérsia financeira: após arrecadar cerca de 90 milhões de dólares em 2020, surgiram denúncias de má gestão, incluindo a compra de uma mansão na Califórnia por 6 milhões de dólares. Patrisse Cullors demitiu-se, negando irregularidades, mas a perceção pública foi afetada quando investigações jornalísticas revelaram uso pouco transparente de fundos12.

O BLM permanece um marco de contestação antirracista, mas a disputa em torno da sua gestão financeira mostra como movimentos sociais também podem ser empoderados e fragilizados pelas memórias a eles associadas.

cancelamento social

O fenómeno contemporâneo do cancel culture levanta sérias questões no campo da memória e da verdade histórica. Muitas vezes, indivíduos ou instituições são alvo de condenação pública imediata, não com base em provas sólidas, mas em conjeturas, rumores ou narrativas virais amplificadas pelas redes sociais.

O resultado é a construção de uma memória coletiva instantânea que funciona como sentença popular sem direito a contraditório, onde a reputação se perde em segundos e raramente é reabilitada, mesmo após eventual prova de inocência.

Este tipo de cancelamento, quando motivado apenas por perceções ou interpretações parciais, gera um efeito de silenciamento social e cultural: figuras públicas retraem-se, o debate empobrece e instala-se o medo de errar. Paradoxalmente, em vez de promover responsabilidade, a cultura do cancelamento baseada em conjeturas pode minar a própria liberdade de expressão que muitos dos seus defensores afirmam proteger.


Memória portuguesa em disputa

  • Estátua do Padre António Vieira (Lisboa, 2020): vandalizada em protestos ligados ao BLM. Para uns, Vieira foi defensor dos indígenas; para outros, cúmplice do colonialismo por justificar a escravização de africanos13.
  • O termo “Descobrimentos” e o Museu das Viagens e dos Encontros (2018–2021): o termo foi criticado como eurocêntrico e apologético, e a sua reformulação foi vista ora como justiça histórica, ora como cedência ao “politicamente correto”14.
  • A descolonização portuguesa (1974–1975): rápida e turbulenta, desencadeou guerras civis em África com consequências sentidas até aos dias de hoje, o êxodo de cerca de 500 mil retornados como que refugiados e forte instabilidade política. Para uns, foi libertação dos povos colonizados; para outros, um agravar do trauma coletivo15.

Quadro comparativo
EventoInterpretação AInterpretação BSíntese histórica
Trump e as fake news (2020)Comunicação alternativa contra elites e media.Desinformação perigosa que minou a confiança pública.Estudos confirmam Trump como um dos principais difusores de fake news sobre Covid-194.
Putin e a “desnazificação” (2022)Missão de “libertação” contra grupos neonazis.Manipulação ideológica para justificar invasão.Historiadores confirmam ausência de base factual; retórica propagandística5.
Mural de Banksy (2025)Crítica social que deveria ser preservada.Vandalismo a remover para proteger património.Apagado em 48h; oficialmente por razões patrimoniais, mas lido como censura7 8.
Morte de Nahel (França, 2023)Prova de racismo estrutural e herança colonial.Episódio isolado, erro individual.Polícia disparou à queima-roupa; protestos nacionais; estudos mostram policiamento mais violento em bairros racializados16 17.
Black Lives MatterMobilização legítima contra racismo estrutural.Fragilizado por polémicas financeiras.Papel central na denúncia do racismo, mas fragilizado pela perceção pública12.
Estátua de Vieira (2020)Homenagem a humanista defensor de indígenas.Símbolo cúmplice do colonialismo.Vieira defendeu indígenas, mas justificou escravização africana; memória ambivalente13.
Cruz suásticaSímbolo ancestral positivo (fertilidade, sol).Marca indissociável do nazismo.Apropriação nazista converteu símbolo milenar em emblema de ódio10.

O Lápis Azul do Séc.XXI

Assim, a História não se remete apenas ao passado: é disputa permanente entre memória, símbolo e poder. Murais apagados, discursos manipulados, monumentos vandalizados ou movimentos sociais contestados mostram como os factos nunca falam sozinhos: precisam sempre de quem os interprete imparcialmente.

O paradoxo do Ocidente está aqui: Se as suas democracias se apresentam como guardiãs da liberdade, mas uma obra de arte é apagada em poucos dias, se discursos são controlados por interesses políticos, palavras são consideradas ofensivas, e memórias coletivas são revistas para evitar desconfortos, o que sobra dessa liberdade?

O ofício de um historiador, tal como lembram Bloch ou Ricoeur, não é oferecer verdades absolutas, mas criticar as fontes, contextualizar discursos e distinguir entre memória e manipulação. Mas esse não é um trabalho exclusivo da academia! No mundo digital, cada um de nós se tornou também um mediador da História.

Ao partilhar-mos uma imagem, um texto ou uma “notícia”, ajudamos a perpetuar uma versão da memória, ou rigorosa ou distorcida. E aqui surge a grande responsabilidade do presente: num tempo em que qualquer rumor pode ser amplificado em segundos, ou um evento crucial abafado no mar de desinformação, cada leitor é também um guardião da memória coletiva.


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Referências bibliográficas
  1. BLOCH, MarcApologia da história, ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. ISBN 978-85-7110-515-5.
  2. MENDES, José M. AmadoA História como Ciência: Fontes, Metodologias e Teorização. 3.ª ed. Coimbra: Coimbra Editora, 1993. ISBN 972-32-0653-0.
  3. RICOEUR, PaulLa mémoire, l’histoire, l’oubli. Paris: Éditions du Seuil, 2000. ISBN 978-2-02-030928-9.
  4. LUSA – “Covid-19: Trump foi o principal impulsionador de fake news sobre a pandemia, diz estudo”. Público [em linha]. 2 out. 2020. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://publico.pt/2020/10/02/mundo/noticia/covid19-trump-principal-impulsionador-de-fake-news-pandemia-estudo-1933717
  5. WAXMAN, Olivia B. – “Historians on What Putin Gets Wrong About ‘Denazification’ in Ukraine”. Time [em linha]. 3 mar. 2022. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://time.com/6154493/denazification-putin-ukraine-history-context/
  6. NORA, PierreLes lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1984. ISBN 978-2-07-070805-3.
  7. REUTERS – “New Banksy mural at London’s High Court shows judge striking protester”. Reuters [em linha]. 8 set. 2025. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://www.reuters.com/world/uk/new-banksy-mural-londons-high-court-shows-judge-striking-protester-2025-09-08/
  8. THE INDEPENDENT – “New Banksy artwork of judge beating a protester removed”. The Independent [em linha]. 10 set. 2025. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://www.independent.co.uk/news/uk/home-news/banksy-royal-courts-artwork-removed-b2824415.html
  9. ZAP – “Glorificação ao passado colonial vs. apagar a História. Os brasões da discórdia”. ZAP [em linha]. 23 fev. 2023. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://zap.aeiou.pt/brasoes-praca-imperio-cml-repudio-523618/
  10. GOODRICK-CLARKE, NicholasThe Occult Roots of Nazism. New York: NYU Press, 1992. ISBN 978-0-8147-3060-6.
  11. FOUCAULT, MichelL’Ordre du discours. Paris: Gallimard, 1971. ISBN 978-2-07-032188-7.
  12. CAMPBELL, Sean – “Black Lives Matter Secretly Bought a $6 Million House”. New York Magazine / Intelligencer [em linha]. 4 abr. 2022. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://nymag.com/intelligencer/2022/04/black-lives-matter-6-million-dollar-house.html
  13. EXPRESSO – “Estátua do Padre António Vieira vandalizada em Lisboa. PSP procura autores”. Expresso [em linha]. 11 jun. 2020. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://expresso.pt/sociedade/2020-06-11-Estatua-do-Padre-Antonio-Vieira-vandalizada-em-Lisboa.-PSP-procura-autores
  14. BETHENCOURT, FranciscoA Expansão Marítima Portuguesa. Lisboa: Temas e Debates, 2020. ISBN 978-989-644-553-9.
  15. OLIVEIRA, Pedro AiresO Adeus ao Império: A descolonização portuguesa (1974–1975). Lisboa: Círculo de Leitores, 2017. ISBN 978-989-644-498-3.
  16. BBC NEWS – “France protests: Who was Nahel, the teenager shot by police in Nanterre?”. BBC News [em linha]. 1 jul. 2023. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:hhttps://www.bbc.com/news/world-europe-66052104
  17. FRANCE 24 (AFP) – “French policeman to go on trial over 2023 killing of teen Nahel”. France 24 [em linha]. 3 jun. 2025. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://www.france24.com/en/live-news/20250603-french-policeman-to-go-on-trial-over-2023-killing-of-teen-that-sparked-riots-1

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