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O paradoxo do Ocidente: História, Memória e Censura



A História, enquanto disciplina académica e enquanto narrativa social, é um campo de disputa permanente. Desde os cronistas medievais até aos influencers contemporâneos, o registo do passado nunca foi neutro. É escrito, reescrito e, muitas vezes, apagado. George Orwell sintetizou esta realidade ao afirmar: “A História é escrita pelos vencedores.”
No séc. XXI, em que as redes sociais amplificam símbolos, discursos e memórias, o debate sobre o que é “facto” e o que é “ficção” tornou-se central. Entre murais de arte censurados, protestos transformados em movimentos globais e acusações de manipulação política, percebe-se que a História não é apenas o que aconteceu, mas também o que escolhemos preservar, ou apagar.
A questão não se limita à memória do passado, pois também no presente, factos e símbolos são manipulados, censurados ou reinterpretados segundo interesses políticos, económicos e ideológicos, na tentativa de controlar as memórias coletivas.
A construção da História e os limites da imparcialidade
A História não se limita a registar factos, mas a construir narrativas a partir de documentos, testemunhos e símbolos, todos eles marcados pela parcialidade de quem os produziu.
Segundo Marc Bloch, o conhecimento histórico resulta da crítica às fontes e da sua interpretação contextualizada¹. José M. Amado Mendes reforça que essa crítica deve seguir um processo metódico: recolha documental, análise das fontes e interpretação².
No entanto, um historiador contemporâneo deve expandir este método para incluir novas fontes: murais urbanos, hashtags, vídeos virais. Como lembra Paul Ricoeur, “recordar é também escolher esquecer”³. Cabe ao historiador refletir sobre o que se preserva e o que se apaga, e sobre quem controla esse processo.
Neste processo, a imparcialidade total torna-se impossível, devendo-se reconhecer tanto a tendenciosidade das fontes, como a dos interlocutores como as nossas próprias enquanto receptores.
Liberdade democrática e manipulação política
Algumas democracias ocidentais orgulham-se de proclamar bastiões da liberdade. Mas se uma obra de arte é apagada em poucas horas, se discursos são controlados por interesses políticos, se palavras são classificadas como ofensivas, se memórias são limpas para evitar desconforto — que sobra dessa liberdade? Não será isto um retorno ao “lápis azul” português do século XX?
A manipulação da História é antiga, servindo para legitimar narrativas heroicas ou encobrir atos menos legítimos. Hoje, em pleno séc. XXI, líderes políticos recorrem a estratégias semelhantes, mas agora amplificadas pelas redes sociais e pelos media.
- Donald Trump foi identificado como um dos principais difusores de fake news sobre a pandemia de Covid-194.
- Vladimir Putin justificou a invasão da Ucrânia em 2022 invocando a suposta “desnazificação”, apropriando categorias históricas da 2.ª Guerra Mundial para se legitimar5.
É inegável que discursos de ódio e manipulações exigem limites. Mas quando esses limites se confundem com censura seletiva, o risco é claro: a democracia transforma-se num palco onde todos falam de liberdade, mas poucos a praticam.
Censura e revisionismos
Pierre Nora definiu os “lugares de memória” como espaços, monumentos, rituais e símbolos, onde se cristaliza e disputa a memória coletiva6.
- O mural de Banksy em Londres (2025), pintado nos muros do Royal Courts of Justice, retratava um juiz a agredir um manifestante. Foi removido em 48 horas, oficialmente por motivos patrimoniais, mas amplamente interpretado como censura preventiva7 8. Ricoeur falaria aqui de uma “política do esquecimento”³. Não é o primeiro caso, o que indica que os seus trabalhos são considerados arte ou vandalismo, dependendo do alvo da sua crítica.
- Os brasões da Praça do Império (Lisboa, 2023) dividiram opiniões: glorificação colonial para uns, património histórico para outros9.
- A cruz suástica, símbolo milenar em culturas indo-europeias, foi redesignada pelo nazismo no século XX, tornando-se indissociável do Holocausto10.
Nestes casos, não é o objeto em si que determina o sentido, mas o discurso político e cultural que o envolve. Como escreveu Michel Foucault, “o poder circula no discurso”11.
Movimentos Sociais
O Black Lives Matter (BLM), fundado em 2013 por Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi, surgiu em resposta à violência policial contra afro-americanos, ganhando dimensão global após a morte de George Floyd em 2020.
Objetivo declarado: combater o racismo estrutural e a violência policial.
Dimensão simbólica: manifestações, hashtags (#BlackLivesMatter) e murais que entraram no léxico da memória coletiva.
Controvérsia financeira: após arrecadar cerca de 90 milhões de dólares em 2020, surgiram denúncias de má gestão, incluindo a compra de uma mansão na Califórnia por 6 milhões de dólares. Patrisse Cullors demitiu-se, negando irregularidades, mas a perceção pública foi afetada quando investigações jornalísticas revelaram uso pouco transparente de fundos12.
O BLM permanece um marco de contestação antirracista, mas a disputa em torno da sua gestão financeira mostra como movimentos sociais também podem ser empoderados e fragilizados pelas memórias a eles associadas.
cancelamento social
O fenómeno contemporâneo do cancel culture levanta sérias questões no campo da memória e da verdade histórica. Muitas vezes, indivíduos ou instituições são alvo de condenação pública imediata, não com base em provas sólidas, mas em conjeturas, rumores ou narrativas virais amplificadas pelas redes sociais.
O resultado é a construção de uma memória coletiva instantânea que funciona como sentença popular sem direito a contraditório, onde a reputação se perde em segundos e raramente é reabilitada, mesmo após eventual prova de inocência.
Este tipo de cancelamento, quando motivado apenas por perceções ou interpretações parciais, gera um efeito de silenciamento social e cultural: figuras públicas retraem-se, o debate empobrece e instala-se o medo de errar. Paradoxalmente, em vez de promover responsabilidade, a cultura do cancelamento baseada em conjeturas pode minar a própria liberdade de expressão que muitos dos seus defensores afirmam proteger.
Memória portuguesa em disputa
- Estátua do Padre António Vieira (Lisboa, 2020): vandalizada em protestos ligados ao BLM. Para uns, Vieira foi defensor dos indígenas; para outros, cúmplice do colonialismo por justificar a escravização de africanos13.
- O termo “Descobrimentos” e o Museu das Viagens e dos Encontros (2018–2021): o termo foi criticado como eurocêntrico e apologético, e a sua reformulação foi vista ora como justiça histórica, ora como cedência ao “politicamente correto”14.
- A descolonização portuguesa (1974–1975): rápida e turbulenta, desencadeou guerras civis em África com consequências sentidas até aos dias de hoje, o êxodo de cerca de 500 mil retornados como que refugiados e forte instabilidade política. Para uns, foi libertação dos povos colonizados; para outros, um agravar do trauma coletivo15.
Quadro comparativo
| Evento | Interpretação A | Interpretação B | Síntese histórica |
|---|---|---|---|
| Trump e as fake news (2020) | Comunicação alternativa contra elites e media. | Desinformação perigosa que minou a confiança pública. | Estudos confirmam Trump como um dos principais difusores de fake news sobre Covid-194. |
| Putin e a “desnazificação” (2022) | Missão de “libertação” contra grupos neonazis. | Manipulação ideológica para justificar invasão. | Historiadores confirmam ausência de base factual; retórica propagandística5. |
| Mural de Banksy (2025) | Crítica social que deveria ser preservada. | Vandalismo a remover para proteger património. | Apagado em 48h; oficialmente por razões patrimoniais, mas lido como censura7 8. |
| Morte de Nahel (França, 2023) | Prova de racismo estrutural e herança colonial. | Episódio isolado, erro individual. | Polícia disparou à queima-roupa; protestos nacionais; estudos mostram policiamento mais violento em bairros racializados16 17. |
| Black Lives Matter | Mobilização legítima contra racismo estrutural. | Fragilizado por polémicas financeiras. | Papel central na denúncia do racismo, mas fragilizado pela perceção pública12. |
| Estátua de Vieira (2020) | Homenagem a humanista defensor de indígenas. | Símbolo cúmplice do colonialismo. | Vieira defendeu indígenas, mas justificou escravização africana; memória ambivalente13. |
| Cruz suástica | Símbolo ancestral positivo (fertilidade, sol). | Marca indissociável do nazismo. | Apropriação nazista converteu símbolo milenar em emblema de ódio10. |
O Lápis Azul do Séc.XXI
Assim, a História não se remete apenas ao passado: é disputa permanente entre memória, símbolo e poder. Murais apagados, discursos manipulados, monumentos vandalizados ou movimentos sociais contestados mostram como os factos nunca falam sozinhos: precisam sempre de quem os interprete imparcialmente.
O paradoxo do Ocidente está aqui: Se as suas democracias se apresentam como guardiãs da liberdade, mas uma obra de arte é apagada em poucos dias, se discursos são controlados por interesses políticos, palavras são consideradas ofensivas, e memórias coletivas são revistas para evitar desconfortos, o que sobra dessa liberdade?
O ofício de um historiador, tal como lembram Bloch ou Ricoeur, não é oferecer verdades absolutas, mas criticar as fontes, contextualizar discursos e distinguir entre memória e manipulação. Mas esse não é um trabalho exclusivo da academia! No mundo digital, cada um de nós se tornou também um mediador da História.
Ao partilhar-mos uma imagem, um texto ou uma “notícia”, ajudamos a perpetuar uma versão da memória, ou rigorosa ou distorcida. E aqui surge a grande responsabilidade do presente: num tempo em que qualquer rumor pode ser amplificado em segundos, ou um evento crucial abafado no mar de desinformação, cada leitor é também um guardião da memória coletiva.
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Referências bibliográficas
- BLOCH, Marc – Apologia da história, ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. ISBN 978-85-7110-515-5.
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- RICOEUR, Paul – La mémoire, l’histoire, l’oubli. Paris: Éditions du Seuil, 2000. ISBN 978-2-02-030928-9.
- LUSA – “Covid-19: Trump foi o principal impulsionador de fake news sobre a pandemia, diz estudo”. Público [em linha]. 2 out. 2020. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://publico.pt/2020/10/02/mundo/noticia/covid19-trump-principal-impulsionador-de-fake-news-pandemia-estudo-1933717
- WAXMAN, Olivia B. – “Historians on What Putin Gets Wrong About ‘Denazification’ in Ukraine”. Time [em linha]. 3 mar. 2022. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://time.com/6154493/denazification-putin-ukraine-history-context/
- NORA, Pierre – Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1984. ISBN 978-2-07-070805-3.
- REUTERS – “New Banksy mural at London’s High Court shows judge striking protester”. Reuters [em linha]. 8 set. 2025. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://www.reuters.com/world/uk/new-banksy-mural-londons-high-court-shows-judge-striking-protester-2025-09-08/
- THE INDEPENDENT – “New Banksy artwork of judge beating a protester removed”. The Independent [em linha]. 10 set. 2025. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://www.independent.co.uk/news/uk/home-news/banksy-royal-courts-artwork-removed-b2824415.html
- ZAP – “Glorificação ao passado colonial vs. apagar a História. Os brasões da discórdia”. ZAP [em linha]. 23 fev. 2023. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://zap.aeiou.pt/brasoes-praca-imperio-cml-repudio-523618/
- GOODRICK-CLARKE, Nicholas – The Occult Roots of Nazism. New York: NYU Press, 1992. ISBN 978-0-8147-3060-6.
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- CAMPBELL, Sean – “Black Lives Matter Secretly Bought a $6 Million House”. New York Magazine / Intelligencer [em linha]. 4 abr. 2022. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://nymag.com/intelligencer/2022/04/black-lives-matter-6-million-dollar-house.html
- EXPRESSO – “Estátua do Padre António Vieira vandalizada em Lisboa. PSP procura autores”. Expresso [em linha]. 11 jun. 2020. [Consult. 12 set. 2025]. Disponível em WWW:https://expresso.pt/sociedade/2020-06-11-Estatua-do-Padre-Antonio-Vieira-vandalizada-em-Lisboa.-PSP-procura-autores
- BETHENCOURT, Francisco – A Expansão Marítima Portuguesa. Lisboa: Temas e Debates, 2020. ISBN 978-989-644-553-9.
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