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Rutura política e primeiras estratégias (1128–1130)
O nascimento do reino de Portugal não se explica apenas por batalhas decisivas ou por diplomacia com Roma, mas também pela forma como D. Afonso Henriques soube mobilizar e recrutar diferentes grupos sociais para sustentar a sua política expansionista. A formação de um exército heterogéneo, que ia da alta nobreza aos marginais integrados em bandos armados, foi determinante para transformar um condado instável num reino autónomo. Este estudo analisa os mecanismos de recrutamento militar no tempo de D. Afonso Henriques, com base em documentação coeva e na historiografia recente, enquadrando-os no contexto ibérico e problematizando o conceito de “Reconquista”.
Rutura política e primeiras estratégias (1128–1130)
A crise de sucessão que culminou na batalha de São Mamede (1128) marcou o ponto de rutura entre D. Afonso Henriques e sua mãe, D. Teresa. Para além da dimensão dinástica, o confronto traduziu-se numa vitória da nobreza portucalense sobre a influência galega de Fernão Peres de Trava. Como refere Alexandre Herculano, na “primeira tarde lusitana”, quando o auto-intitulado príncipe (por ser neto de D. Afonso VI) vence a batalha, “vencem também os barões portucalenses, que o apoiaram afastando o possível domínio galego”¹.
Pouco depois, em 1130, Afonso deslocou a corte para Coimbra, afastando-se dos barões do norte e aproximando-se da fronteira ativa contra al-Andalus. Esta decisão reforçou o papel do clero urbano (Santa Cruz, Santa Clara) e permitiu-lhe recrutar novos aliados, deslocando o centro político para um espaço de guerra permanente².
O mosaico do recrutamento militar
O exército afonsino era um mosaico social, articulado entre elites e populações locais.
Quadro 1 – Estrutura social do recrutamento militar no tempo de D. Afonso Henriques
| Grupo social / militar | Origem / Motivação | Função principal | Exemplos / Observações |
|---|---|---|---|
| Alta nobreza | Linhagens portucalenses e borgonhesas | Comando militar e apoio político | Barões de São Mamede |
| Infanções (pequena nobreza) | Filhos segundos, sem herança | Serviço militar direto; procura de prestígio e terras | Corte de Coimbra |
| Cavaleiros-vilãos | Proprietários livres com cavalo e armas | Combate em fossados; defesa local | Beneficiados por forais concelhios |
| Besteiros e peões | Populações concelhias (obrigação foraleira) | Infantaria leve; construção de castelos | Rotatividade agrícola-militar |
| Clero secular e regular | Mosteiros de Santa Cruz e Santa Clara | Legitimação ideológica; apoio logístico | Pregação e mobilização |
| Ordens militares | Templários, Hospitalários | Defesa de fronteiras; fortificação | Doação de Soure (1130); Gualdim Pais |
| Marginais / salteadores | Bandos locais e aventureiros | Ataques rápidos; saque | Geraldo Sem Pavor em Évora (1166) |
| Cruzados estrangeiros | Europeus em trânsito para a Terra Santa | Reforço militar em campanhas | Cerco de Lisboa (1147) |
| Mesnada régia (“scola comitis”) | Guarda pessoal do rei | Núcleo permanente da hoste | ~300 cavaleiros |
Fontes primárias
O Foral de Coimbra (1111), concedido por D. Henrique, previa que “os vizinhos defendam a cidade e façam guarda, cada um segundo as suas posses”, confirmando a base concelhia do recrutamento³.
A Crónica de D. Afonso Henriques refere que “se reuniram muitos homens, cavaleiros e peões, para que se fizesse guerra contra os mouros”⁴.
As cartas de couto (inspiradas em modelos franceses) isentavam clérigos e cavaleiros de certas obrigações fiscais em troca de serviço militar, mostrando a articulação entre espiritualidade e guerra⁵.
Estratégias régias de integração social
Afonso soube equilibrar apoios de forma pragmática:
Nobreza e infanções: ofereceu prestígio e oportunidades militares.
Concelhos: garantiu privilégios jurídicos em troca de obrigações militares (fossados anuais, patrulhas noturnas, vigilância de torres).
Clero e ordens militares: reforço espiritual e militar; alianças estratégicas (Soure, 1130).
Marginais: bandos de saqueadores transformados em braços armados da coroa, como Geraldo Sem Pavor.
Deste modo, a hoste afonsina era simultaneamente uma rede feudal e concelhia, capaz de responder a ameaças e lançar ofensivas rápidas.
Comparação peninsular
- Castela: os magnates mantiveram mesnadas próprias, mais autónomas face ao rei.
- Aragão: forte participação concelhia e urbana na guerra.
- Portugal: modelo híbrido, com maior dependência da coroa na concessão de forais e no patrocínio direto às ordens militares, reforçando precocemente o poder régio⁶.
A questão historiográfica: Reconquista ou guerra de fronteira?
O termo Reconquista é hoje debatido. Como sublinha Maria João Branco, não havia no séc. XII uma consciência nacional de “recuperar” uma unidade perdida. Tratava-se antes de expansão militar cristã com dimensão espiritual (cruzada) e pragmática (saque, terras, prestígio).
A bula Manifestis Probatum (1179) foi o reconhecimento papal que consagrou este discurso: Afonso apresentou-se como rei de um território cristão independente, combatente contra o Islão. A guerra foi assim instrumentalizada como fundamento de legitimidade política⁷.
Conclusão
D. Afonso Henriques não inventou a guerra, mas institucionalizou o recrutamento militar em escala nacional, integrando nobreza, concelhos, clero, ordens, marginais e estrangeiros. Através desta malha militarizada, conseguiu expandir fronteiras, consolidar poder e obter legitimação internacional.
Portugal nasceu, em grande medida, como uma sociedade em armas, onde todos, do camponês ao infanção, do monge ao salteador, estavam implicados na defesa e expansão do território. Esta mobilização total distingue o processo português no quadro ibérico e explica a rápida consolidação de um reino autónomo no séc. XII.
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Este artigo foi adaptado de um ensaio académico
Referências Bibliográficas
1, 2 – MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal, vol. II: A Monarquia Feudal (1096-1480). Lisboa: Editorial Estampa, 1993. ISBN 972-33-1115-1.
3 – AFONSO, Carlos – A hoste de D. Afonso Henriques. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa / Exército, 2019. ISBN 978-989-8801-23-4.
4 – BASTO, Artur de Magalhães (ed.) – Crónica de D. Afonso Henriques. Porto: Portucalense Editora, 1945.
5, 7 – BARROCA, Mário Jorge – No tempo de D. Afonso Henriques. Reflexões sobre o primeiro século português. Porto: Fronteira do Caos, 2017. ISBN 978-989-8868-63-3.
6 – TEIXEIRA, Nuno Severiano; MONTEIRO, João Gouveia; DOMINGUES, Francisco Contente – História Militar de Portugal.
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