Aprender faz bem. Rir também!
A ressaca de um império que já não existe
Portugal foi império durante séculos. Inventou rotas, espalhou-se por meio mundo, traficou milhões de pessoas, ergueu fortalezas e deixou por todo o lado a sua marca — ora gloriosa, ora sangrenta. Em 2025, já não tem colónias, mas tem uma obsessão: pedir desculpas ou não pedir desculpas?
É quase uma cena de terapia coletiva: metade do país deitado no divã da História, a outra metade a dizer “já chega, vamos é trabalhar”.
Heróis ou traficantes?
Durante séculos, os manuais escolares serviram os Descobrimentos como epopeia de coragem, caravela a caravela. Mas faltava sempre a nota de rodapé: Portugal transportou cerca de 5 milhões de africanos escravizados, quase 40% de todo o tráfico atlântico.
É aqui que o debate se complica: os feitos heroicos convivem com os abusos mais brutais. Somos simultaneamente os que mapearam o mundo e os que o exploraram até ao osso.
A esquerda com martelos, a direita com lustra-móveis
Chegamos ao presente: Portugal em 2025.
A esquerda radical inspira-se no Black Lives Matter e quer “purificar a paisagem pública”: pichações na estátua do Padre António Vieira, marchas, protestos. Dizem que sem desculpas oficiais não há reconciliação. O problema? Muitas vezes confundem crítica legítima com vandalismo histórico. Destruir uma estátua não reescreve a História, apenas parte mármore e bronzes.
Já a direita, pelo contrário, empurra o espanador com entusiasmo. Defende as estátuas como se fossem santos de altar e insiste num passado “polido”, glorioso, onde os Descobrimentos foram uma missão civilizadora e a escravatura uma nota de rodapé incômoda. Orgulho nacional sem manual de instruções.
Resultado: um país onde um lado quer demolir a História e o outro quer plastificá-la.
Quando a opinião pública não perdoa ninguém!
Uma sondagem da Universidade Católica Portuguesa (2025) mostrou como o país está dividido:
- 35% querem desculpas oficiais;
- 58% dizem “nem pensar”;
- 57% exigem indemnizações para retornados;
- 58% apoiam memoriais da escravatura;
- 66% recusam remover estátuas coloniais.
Ou seja, aceitamos memoriais e museus, mas recusamos culpas coletivas. Lembrar sim, auto-flagelação não.
Os esquecidos no meio do barulho: os retornados
Entre 1974 e 1977, meio milhão a 800 mil portugueses fugiram das ex-colónias africanas para cá. Deviam ter sido vistos como refugiados de guerra, mas foram estigmatizados como “privilegiados”.
Origem dos retornados (1974–1977)
A realidade? Ficaram sem casas, sem negócios, sem compensações dignas. Muitos alojados em hotéis desativados e quartéis. Quase meio século depois, ainda paira um silêncio familiar e social sobre esse trauma. Nem esquerda nem direita gostam de falar deles: não servem a narrativa nem da culpa eterna nem do orgulho patriótico. Mas para aproveitamentos populistas, estes já servem!
Lá fora: todos pedem desculpa… mais ou menos
Holanda: desculpas oficiais e 200 milhões para memoriais.
Alemanha: reconhecimento do genocídio Herero e Nama.
Reino Unido: indemnizações a sobreviventes do Mau Mau.
Bélgica: “profundos pesares” pelo Congo.
França: relatórios e debates intermináveis com a Argélia.
Cada um encontra o seu meio-termo. Ninguém gosta da ideia de “culpa hereditária”, mas todos reconhecem que esconder o passado é receita para mais conflito.
E o Brasil? O ouro, os escravos e amnésia seletiva
Quando se fala de reparações históricas, muitos no Brasil levantam a bandeira: “Devolvam o nosso ouro!”. É uma frase forte, rende likes e manchetes, mas esconde uma contradição monumental.
Sim, toneladas de ouro saíram do Brasil no século XVIII. Mas convém lembrar que boa parte foi parar a Londres, via Tratado de Methuen, e outra parte ficou nas mãos de elites coloniais no próprio Brasil. Elites que, atenção, eram maioritariamente de origem portuguesa, ou seja, as grandes fortunas coloniais até ao séc. XVIII estavam controladas por famílias vindas de Portugal.
E o que aconteceu em 1822? Essas mesmas famílias não regressaram a Lisboa. Ficaram. Mudaram o nome de “portugueses” para “brasileiros” e continuaram no poder. Entre 1822 e 1888, estudos de Lilia Schwarcz e José Murilo de Carvalho mostram que,não só a elite política e económica imperial (Parlamento, ministério, cafeicultores) era de descendência portuguesa, como consolidou as desigualdades até ao séc. XX.
E aqui entra a grande ironia histórica: o Brasil conquistou a independência em 1822, mas manteve a escravidão até 1888. Ou seja: quando o Brasil independente manteve a escravidão por mais 66 anos, não foram “os portugueses de Lisboa” que exploraram negros em plantações, mas as elites luso-brasileiras já instaladas e naturalizadas.
Enquanto Portugal tropeçava entre guerras liberais, bancarrotas e atraso industrial, o Brasil independente exportava ouro, açúcar, café e borracha… sustentado em trabalho escravo. Foi o último país do Ocidente a abolir a escravatura.
Então a verdadeira questão impõe-se: se é para pedir reparações, pedem-se a Lisboa ou às famílias que enriqueceram no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais?
A resposta dói, mas é esta: a escravidão brasileira do séc. XIX foi obra de brasileiros. Se hoje se fala em reparações, a conta deve ser apresentada primeiro às elites do próprio país, que construíram palácios à custa do chicote.
“Devolvam o nosso ouro”? Talvez o slogan era mais honesto se fosse: “Devolvam a nossa memória.” É que o ouro derrete-se, mas o silêncio sobre os 66 anos de escravidão independente que deixou as marcas que ainda hoje se sentem continua a ser a maior hipocrisia histórica desse slogan.
Portugal vs Brasil: abolição em datas
| Ano | Portugal (metrópole e império) | Brasil |
| 1761 | Proibição da entrada de escravos no continente | — |
| 1815 | Compromisso de Viena | — |
| 1836 | Decreto Sá da Bandeira: fim do tráfico | — |
| 1850 | — | Lei Eusébio de Queirós |
| 1869 | Lei geral de abolição | — |
| 1871 | — | Lei do Ventre Livre |
| 1878 | Abolição definitiva nas colónias | — |
| 1885 | — | Lei dos Sexagenários |
| 1888 | — | Lei Áurea (abolição final) |
Culpa ou responsabilidade?
Aqui está o dilema que ninguém resolve:
- A esquerda fala de culpa coletiva: mesmo quem nunca escravizou ninguém deve desculpar-se.
- A direita prefere responsabilidade zero: o que passou, passou, não nos diz respeito.
Mas há um caminho do meio: não se trata de culpa pessoal, mas de reconhecer que as consequências históricas ainda existem, do racismo estrutural ao atraso económico. Ignorar isso é tão está ao mesmo nível do carregar culpas do que não vivemos.
Então, pedimos desculpas ou não?
Talvez a pergunta esteja a ser mal feita. Pedir desculpas pode soar a gesto vazio, não pedir pode parecer cinismo. O essencial é outra coisa: lembrar tudo, sem cortar pedaços:
- As epopeias marítimas e as páginas negras;
- Os missionários e os traficantes.
- Os descobrimentos e as destruições.
Porque, no fim, a História não é confissão nem propaganda, mas memória crítica.
E tu, preferes ser cúmplice do esquecimento seletivo, cúmplice da autoflagelação inútil ou tentas aprender para não repetir?
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