Porque a História merece mais do que tédio académico e moralismO social
I. Prólogo: Um crl de um cesto e a História de um país
O CRLdaHISTÓRIA nasceu no mesmo sítio onde nascem quase todas as grandes ideias portuguesas: entre a ironia, o desconforto e a teimosia.
Diz a lenda que, no cesto no alto do mastro, onde os marinheiros eram mandados de castigo, o caralho das caravelas, via-se primeiro a terra, o perigo e o novo mundo.
É daí que também olhamos o mundo hoje: lá em cima, no desconforto, com os olhos lacrimejantes, a fadiga nos ossos, mas com vista larga.
A História, para nós, não é um relicário, é um ringue.
E o nosso ofício é obrigar o passado a falar, nem que seja à chapada.
II. A Heresia Original: rir para pensar, pensar para irritar
Há quem defenda que a História deva ser neutra. Nós defendemos que deve ser honesta, o que é quase sempre o contrário.
A neutralidade, quando o tema é poder, escravatura ou religião, é só uma forma elegante de fugir à conversa e deixar o trabalho de descortinar o que não se disse para uns poucos com paciência e tempo.
Nós fazemos o oposto: trazemos o debate para a mesa, servimos ironia de entrada, sarcasmo de prato principal e rigor académico como sobremesa.
O humor é a nossa arma. Não porque banalize, mas porque abre fendas na seriedade hipócrita, e é por essas fendas que entra a luz.
III. Contra o tédio institucional e a moralização da memória
A academia faz muito pela História. Mas também a amarrou à secretária. A universidade portuguesa fala do passado como quem lê bulas de medicamentos: sem alma, sem ritmo e com mais notas de rodapé do que oxigénio.
Por outro lado, as redes sociais transformaram a História num stand-up ideológico: gritos, slogans, indignações recicladas e muito pouca leitura.
O CRL existe contra ambos os extremos:
nem tédio académico,
nem catequese digital.
Nem o “orgulho imperial”, nem a “vergonha colonial” pois, ambos, são máscaras da mesma preguiça intelectual.
Queremos uma História sem filtros, sem véus e sem medo de dizer que o passado foi, à luz dos nossos dias, cruel, sujo, contraditório e, por isso mesmo, profundamente humano.
IV. O Método: rigor e desacato
Chamamos-lhe o Método Templo & Taverna.
No Templo, trabalhamos com a seriedade de quem prepara um exame oral entre dois grandes Zés, o José António Saraiva e o José Mattoso. Fontes, dados, notas, referências NP405, e uma convicção: sem rigor não há revolução.
Na Taverna, transformamos o mesmo rigor em conversa. História falada, humorada e ritmada, para quem tem 15 minutos no carro, não 15 anos de doutoramento.
É ali que o conhecimento ganha alma, sotaque, riso e sangue. É ali que o passado volta a ser carne e não apenas palavras de um manual.
V. A Nossa Guerra: contra a ignorância confortável
Vivemos rodeados de gente que “tem opiniões históricas” sem nunca ter lido uma fonte.
Vivemos numa época que troca complexidade por moralismo e investigação por um post do Facebook.
Nós não queremos agradar a ninguém, mas incomodar todos:
- o nacionalista nostálgico que acha que o império foi um spa tropical;
- o ativista que confunde História com autoflagelação moral;
- e o académico que acha que “divulgação” é um insulto.
O CRL existe para partir o espelho onde a memória nacional se penteia há séculos. Porque o reflexo está dismorfo e a História, quando bem contada, faz cocegas.
Mas não viemos só partir, viemos construir. Queremos pôr professores, alunos e curiosos à mesma mesa, a discutir sem medo do riso nem da dúvida, e contrubuir para formar uma comunidade que lê, ouve, contesta e volta amanhã para continuar a conversa.
VI. A Missão: democratizar o fascínio
Queremos que qualquer pessoa, do miúdo da escola ao reformado que ainda acha que o Camões era do Benfica, consiga ouvir um episódio e perceber o essencial de uma época sem sentir que precisa de tradutor.
Não simplificamos a História, traduzimo-la. Do latim académico para o português de rua, sem perder nuance nem abdicar do contexto.
Cada episódio é uma aula, um debate e um copo. Queremos que quem ouve aprenda, mas também ria, duvide e, se for preciso, discuta no café.
A História também serve para isso: para nos pôr à bulha com a nossa perceção do passado, e não para nos adormecer ou servir de validação conveniente.
VII. O Compromisso: fontes, humor e responsabilidade
O nosso pacto é simples:
1️⃣ Nunca mentir. Podemos rir, ironizar, dramatizar, mas nunca distorcer factos.
2️⃣ Citar sempre. As piadas têm fontes. A História, mais ainda.
3️⃣ Questionar tudo. O herói, o vilão, o professor e, o próprio CRL.
4️⃣ Fazer pontes, não trincheiras. A História é comum ou não é História, é propaganda.
5️⃣ Ensinar com prazer. Porque o prazer é a forma mais revolucionária de aprendizagem.
VIII. O Futuro: da lusofonia à História global
O CRL é português, mas não se contenta com fronteiras. Queremos falar da História de Portugal, mas também da História dos que a construíram, sofreram, partilharam e reinventaram.
Dos africanos forçados a atravessar o Atlântico. Dos brasileiros que herdaram um país feito de contradições. Dos europeus que continuam a herdar impérios de papel.
A lusofonia não é a desculpa, é a matéria-prima. É nela que procuramos o que ainda não soubemos ouvir, as vozes que o tempo abafou, os ecos que ainda ressoam.
Seguimos a linha da História Pública internacional, de Mary Beard a Yuval Harari, mas com sotaque português, ironia lusa e sem medo de escândalos.
IX. Epílogo: o símbologismo
Chamámos-lhe CRLdaHISTÓRIA por duas razões:
- porque o nome choca, e o choque é a melhor anestesia contra a indiferença;
- e pela analogia entre historiadores e marinheiros dos Descobrimentos: os que, do cesto das gáveas, viam primeiro as novas realidades, os perigos e as descobertas, e tinham a responsabilidade de avisar a tripulação.
Queremos continuar essa tradição: ter a vista desimpedida, mesmo quando o vento sopra contra.
Se o nome ofende, ótimo! A História também ofende muitos, e é por isso que vale a pena contá-la.
X. Conclusão: o nosso juramento
Juramos pela memória dos que foram esquecidos, pelo cansaço dos que estudam sem serem ouvidos, e pelo riso dos que ainda conseguem aprender sem se levar demasiado a sério.
Juramos continuar a fazer História sem filtros, sem medo e sem papas na língua. Juramos que, se for preciso escolher entre ser respeitados ou ser ouvidos,
seremos ouvidos.
E quem quiser rigor, que suba connosco ao topo do mastro.
CRLdaHISTÓRIA
História sem tédio.
Memória sem filtros.
Rigor com sotaque.
E uma coragem do crl.
